Sábado, 2 de Abril de 2011

O início

Consegui chegar aos 24 anos como uma pateta alegre que não sabia nada da vida, e foi nessa condição que deitei mão à obra e fui estudar o então recém- nascido Rendimento Mínimo Garantido (RMG). Iniciei a tarefa com a elaboração de um questionário completamente patetoide, repleto de perguntas totós. O primeiro contemplado foi um arrumador de carros chamado Victor, a quem perguntei com o meu sorriso Pepsodente que mudanças ele achava que o RMG ia trazer à sua vida. Ele olhou para mim com um olhar misto de indignação e complacência e respondeu: eu tenho 49 anos, sou doente de sida, coxo, cego de um olho, toxicodependente desde os 17 anos, não estudei e nunca trabalhei, não sei fazer nada, não tenho família e não tenho casa. Que mudanças é que acha que o Rendimento Mínimo vai trazer à minha vida? E pronto, estava dado o meu primeiro passo na direcção do abismo da consciencialização (gostava tanto de poder fazer marcha atrás).

publicado por cam às 23:20
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2011

O meu melhor presente

Recebi telefonemas de boas festas e bom ano novo de vários imigrantes com quem trabalhei e que não vejo há mais de 3 anos. Comove-me que não me tenham esquecido de mim e que todos os anos me telefonem nesta época, sempre com palavras de carinho, apreço e reconhecimento. Não há sensação melhor do que sabermos que somos importantes para as outras pessoas e que deixámos uma marca que elas não querem deixar apagar. Também me agrada saber que depois de anos a viverem na rua entregues ao álcool estão a conseguir dar a volta às suas vidas. Saíram da rua, trabalham e alguns já se legalizaram. Para um alcoólico cada dia é um dia, mas que tenham chegado até aqui já é uma vitória e mesmo que tenham recaídas no futuro espero que voltem a conseguir reagir. São situações que considerei perdidas e é uma lição de vida que me estão a dar. Estavam sozinhos num país estrangeiro, sem família, amigos, casa, trabalho, documentos, e com um vício terrível, mas estão a conseguir dar a volta por cima. São algumas excepções entre muitos que não resistiram e que no nosso país perderam os sonhos, a saúde e por vezes a vida. Desejo que continuem a encontrar em si a força para ultrapassar as adversidades, pois no final os que saem vitoriosos são os que se conseguem encontrar dentro de si os recursos para se ajudarem a si próprios e resolver os seus próprios problemas, sem depender de ninguém. Quem está de fora e quer ajudar pode dar um empurrãozinho e umas palavras de encorajamento, mas a luta pela vida é de cada um. Bem hajam! Vcevo dobrovo!

publicado por cam às 15:24
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Os grandes amores da minha vida

Às vezes na vida devemos fazer um balanço e olhar para o que já lá vai, como forma de melhor prever o que se segue. Por isso nada como começar o ano com um balanço daqueles que foram os 10 grandes amores platónicos da minha vida. Aqui vão eles, por ordem mais ou menos cronológica: 

1º- Elias;

2º- Gafanhoto Flip;

3º- Darth Vader;

4º- o vocalista dos a-ha em versão desenho animado;

5º- Her Flick;

6º- Sir Humphrey;

7º- Tano Carridi;

8º- Leonard Cohen;

9º- Mr- Darcy;

10º- Michael “Olga” Algar

publicado por cam às 01:33
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2010

Os meandros da dor

Apesar de nunca ter passado fome, nem ter visto a minha aldeia ser atacada por terroristas furiosos ou violadores compulsivos, considero que a minha vida me tem feito passar alguns momentos bastante difíceis. Afirmo isto com a plena consciência do meu egocentrismo, o qual não é de estranhar em alguém que teve o raro privilégio de nascer no primeiro mundo de uma época que nos oferece uma qualidade de vida nem imaginada pela grande maioria dos seres humanos que já passaram por esta terra, ou que ainda por cá andam em contextos geográficos menos felizes.

Diz quem sabe que o ser humano tem uma sensibilidade selectiva e que as desgraças se escondem atrás umas das outras, com a maior a ocultar as mais pequenas. Sempre que a principal preocupação da nossa vida é removida surge uma infinidade de problemas de menor dimensão, como uma matriosca interminável que se recusa a dar-nos paz. Assim, acredito ser possível ser tão infeliz por causa do massacre da nossa família, como por causa de um revés laboral.

Como nunca tive fome nem frio, as minhas maiores desgraças, que na altura da sua ocorrência me pareceram tragédias inultrapassáveis, consistiram essencialmente na morte de entes queridos, em desaires amorosos, ou em duros golpes no meu atribulado percurso profissional e académico. Enfrentei-as com a terrível intensidade do desespero e cheguei a acreditar que nunca as conseguiria ultrapassar, que a minha vida não teria continuidade e perdera todo o seu sentido.

Estou agora num desses momentos. Os planos que fizera para a minha vida desfizeram-se num ápice e os meus sonhos afastam-se de mim a trotar com cruel indiferença. Nada será como eu planeara, como eu tanto desejara e porque lutara com tanto empenho. Tudo terminou. Daqui para a frente a minha vida seguirá coxa e marreca, um pobre reflexo do que poderia ter sido mas me foi retirado com implacável facilidade. Sofro e choro. Não consigo dormir e escrevo para aliviar a dor. E amanhã será um novo dia…

publicado por cam às 02:24
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2010

As intermitências da morte

Tive uma conversa pitoresca sobre a morte com o homem que veio arranjar a fechadura:

Ele: Na vida tudo tem remédio, menos a morte.

Eu: A morte remedeia-se facilmente: enterra-se.

Ele (olhar assustado): ...Pois... er.... hum...

Eu: Temos que ser pragmáticos.

Ele (ainda o olhar assustado): Dizem que os homens é que costumam ser frios, mas com essa você calou-me.

Eu (sorriso amarelo): ...Pois...

(Ainda pensei falar-lhe nos anos que passei a acompanhar doentes terminais, a colaborar com a PJ em casos de homicídio, a providenciar funerais e a ir à morgue identificar cadáveres, mas tive medo que ele fugisse sem receber, e detesto ficar a dever).

publicado por cam às 06:31
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Sexta-feira, 9 de Julho de 2010

Sugestão de leitura para as férias - O nome da Rosa (Umberto Eco)

Quem está na penúria e tem que trocar a habitual viagem às Caraíbas por umas idas ocasionais à Costa da Caparica, pode aumentar significativamente o potencial de entretenimento das suas férias com umas leituras interessantes, as quais proporcionam uma viagem interior que substitui plenamente os prazeres dos destinos exóticos (vamos ser optimistas). Como já estou familiarizada com os encantos da instabilidade laboral e respectiva carência económica, acumulei um currículo literário de fazer inveja ao Marcelo Rebelo de Sousa, senão em quantidade pelo menos em boa vontade e empenho. Por isso aqui ficam algumas sugestões para todos os gostos, desde os leitores assíduos da Bola e da Maria que procuram aventurar-se um pouco mais além, até aos veraneantes que buscam companhia para as caipirinhas ao pôr-do-sol debaixo das palmeiras (ou, no contexto económico actual, para a cervejola na tasca da esquina). Tenciono apresentar várias sugestões, não sei quantas, pois vai depender do eterno duelo entre a vontade e a preguicite aguda. Começo com um dos melhores livros que li na minha vida, o Nome da Rosa, de Umberto Eco. Passar pela vida sem ler este livro é como viver em Lisboa sem nunca ver o mar ou sem ter provado um pastel de Belém. Aqui encontram humor, amor, suspense, reconstituição histórica e uma escrita belíssima, tendo como pano de fundo um mosteiro na idade média, onde mestre e discípulo investigam uma série de crimes misteriosos ligados a um livro obscuro escondido numa biblioteca labiríntica e impenetrável: “ninguém deve (entrar). Ninguém pode. Ninguém, querendo, o conseguiria. A biblioteca defende-se por si, insondável como a verdade que acolhe, enganosa como a mentira que encerra. Labirinto espiritual, é também labirinto terreno. Poderíeis entrar e poderíeis não sair”. Se na Idade Média não se lia porque o acesso aos livros era condicionado pela Igreja, por receio da perda do monopólio do conhecimento e do despertar do sentido crítico (tema tratado no livro), hoje em dia não se lê porque não se quer saber, o que é mais preocupante, pois é uma ignorância por opção e não por imposição. Por isso contrariem esta tendência e não deixem de ler este livro magnífico, onde vidas se perdem na tentativa de desafiar as “verdades” impostas por uma sociedade paternalista e controladora: “nem todas as verdades são para todos os ouvidos, nem todas as mentiras podem ser reconhecidas como tais por um espírito piedoso, e os monges, enfim, estão no scriptorium para levar a cabo uma obra precisa, para a qual devem ler certos volumes e não outros, e não para seguir qualquer insensata curiosidade que os colha, quer por debilidade da mente, quer por soberba, quer por sugestão diabólica”. É uma obra-prima da literatura que está o dispor de todos, em qualquer livraria. Sejam curiosos.

 

publicado por cam às 18:59
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Terça-feira, 29 de Junho de 2010

Homenagem a um amigo desaparecido

Poema dedicado a um amigo recentemente falecido, mas há muito desaparecido da minha vida, não por opção minha, mas por aquelas voltas que a vida dá independentemente da nossa vontade e que nos afastam daqueles que amamos. Com muito carinho e respeito aqui fica, como uma mensagem numa garrafa, que nunca chega ao seu destino mas que nem por isso deixa de existir. Estou triste por te perder outra vez, agora irremediavelmente :(
Que a terra te seja leve, Salvador...

Do not stand at my grave and forever weep,
I am not there, I do not sleep.
I am in a thousand winds that blow,
I am the softly falling snow.
I am the gentle showers of rain,
I am the fields of ripening grain.
I am in the morning hush,
I am in the graceful rush
Of beautiful birds in circling flight,
I am the starshine of the night.
I am in the flowers that bloom,
I am in a quiet room.
I am in the birds that sing,
I am in each lovely thing.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there. I do not die.

Mary Elizabeth Frye
publicado por cam às 10:35
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Sábado, 12 de Junho de 2010

Bolero de Ravel, por Maurice Béjart

Este bailado da autoria de Maurice Béjart é de uma intensidade e beleza extraordinárias e transpira sensualidade por todos os poros. Aqui numa interpretação alternada entre um homem (Octávio Stanley) e uma mulher (Elisabeth Ros). Não há palavras para descrever as coisas sublimes. Aqui ficam as imagens que falam por si.

 

 

 

publicado por cam às 19:38
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Terça-feira, 20 de Abril de 2010

Poema em linha recta por Osmar Prado

Desde que o excesso de trabalho me afastou das andanças bloguísticas, que este espaço tem estado ao abandono. Voltei por um breve momento, sem tempo nem vontade para grandes divagações. Vou apenas deixar aqui um pequeno vídeo que me surpreendeu pela positiva. Osmar Prado declama o Poema em Linha Recta de Fernando Pessoa, na telenovela brasileira O Clone, da autoria de Glória Perez. Não vi esta novela nem é um género que aprecie. Por vezes a limitação a 4 canais empurra-me para as nossas novelas, que são do mais básico que se possa imaginar. Daí a surpresa de ver poesia inserida na acção de uma telenovela, em plena articulação com as suas personagens, que ganham uma profundidade que não suspeitava encontrar neste contexto. Parabéns ao actor pela excelente representação e à autora por a ter tornado possível.

 

publicado por cam às 21:48
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Segunda-feira, 11 de Janeiro de 2010

As ONGs - da ilusão à realidade

Após ter trabalhado durante 8 anos em Organizações Não Governamentais (ONGs) e de ter dedicado a minha dissertação de mestrado à sua análise, tenho que concordar com as reservas levantadas por Paul Ginsborg a respeito da sua idoneidade. Eu não o diria melhor, por isso aqui ficam as suas palavras, para ler, interiorizar e reflectir seriamente no que se esconde por trás da máscara do altruísmo:

 

"As organizações das sociedades civis apresentam numerosas lacunas. Muitas vezes é precisamente o seu carácter fluído e informal, que tanto fascina e atrai num certo plano, que representa um grave defeito de um diferente ponto de vista. Na falta de regras formais é fácil para os indivíduos explorarem a sua posição de figuras carismáticas fundadoras ou análogas, para tentarem controlar as organizações e colocarem-se acima das críticas. Infelizmente o autocontrolo e autodisciplina individuais tão eloquentemente invocados por Mill com frequência escasseiam, não só na esfera política estreita, a partidária, mas também entre quem é activo na sociedade civil"... "Construir a sociedade civil requer dotes particulares de paciência e tenacidade bem como uma inata cultura da democracia. Muitas vezes faltam uma ou mais destas qualidades"... "Existe também o problema da representação. Quem representam exactamente as organizações da sociedade civil? E de que modo é possível verificá-lo? Por trás de denominações grandiloquentes só se podem ocultar ambições individuais"... "Todos estes limites e desconformidades não podem passar em silêncio. Os fautores da sociedade civil deveriam pelo contrário trazê-los à luz do dia para os poderem discutir de maneira adequada"... "É necessário estabelecer aqui um difícil equilíbrio entre informalidade e espontaneidade de um lado e regras de procedimento e de conduta do outro".

 

Amén!

publicado por cam às 21:26
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